O texto abaixo foi escrito em 26 de Janeiro desse ano, encomendado para ser uma analise da atual crise que também levaria a um conjunto de propostas para o processo eleitoral de 2010. Era minha intenção, a partir desse texto, de desenvolver os diferentes temas de forma mais detalhada ao longo do tempo. Como sempre, a vida faz de picadinho nossas melhores intenções, e não tive, e não devo ter, tempo para tal trabalho. Assim decidi soltar esse documento por extenso, adicionando esses comentários.
Para aqueles que conhecem meu trabalho e as posições que tenho defendido, vários temas são aqui retomados. Primeiro, que a crise atual tem que ser vista como uma oportunidade para resolver o grande entrave da economia brasileira: as altíssimas taxas de juros. Mas diferente de muitos economistas brasileiros, que concordam em ver a questão dos juros como a principal anomalia da economia brasileira, eu não vejo uma “conspiração” maldosa do setor financeiro e do Banco Central, como a explicação; nem apoio nenhum movimento que implique quebra de contratos ou um custo altíssimo, financeiro e reputacional, para o Tesouro e o BC, como soluções. Quem tem seguido meus embates com certos keynesianos brasileiros sabe como essas noções infelizmente dominam o imaginário de muitos economistas por aqui.
Começamos com uma analise da crise internacional, colocando como explicação da crise um conjunto de fatores políticos e econômicos que definem a relação entre paises distintos nessa ultima onda de globalização. A crise foi fruto principalmente do impacto da relação altamente assimétrica entre o que eu chamo de paises “poupadores” e paises “consumidores”, onde ambos interferem nos mecanismos econômicos que levariam a fechar os conseqüentes desequilíbrios dessas relações, principalmente pela fixação da taxas de cambio. Tal sistema implica, para financiar os déficits em conta corrente resultantes, enormes fluxos financeiros, que fornecem a matéria prima para varias bolhas especulativas, que os regimes regulatorios deficientes, parte das escolhas políticas desses paises, não controlam. A eventual implosão dessas bolhas leva a crise bancaria, e a necessidade definir como distribuir esse custo entre credores, devedores, intermediários (os bancos) e o contribuinte. André Lara Resende, em recente artigo par o Valor, defendeu tese muito similar sobre a crise.
Passamos adiante para uma analise da economia brasileira na era Lula, enfatizando o impacto benéfico das varias bolhas globais sobre a economia brasileira, definindo os vários mecanismos multiplicadores de renda e sobre percepção de risco para, a partir de um choque exógeno inicial, gerar todo um ciclo positivo de consumo e investimento, onde literalmente “todos ganham”. Afirmamos como, dentro dessa dinâmica, o governo Lula foi um agente relativamente passivo. De fato, a mostramos como a política monetária, visto por muitos como o grande vilão da historia, foi essencialmente se ajustando de forma passiva a essa soma de choques e mecanismos de propagação.
Olhando para essa conjuntura, e se inspirando na metodologia proposta pelo economista turco Dani Rodrik, sem duvida o maior economista da área de desenvolvimento econômico da atualidade, afirmamos que é a questão dos juros que impede que o Brasil, sem ter por trás uma variedade de bolhas financeiras globais, tenha um processo de desenvolvimento constante e sustentável. Argumentamos que isso é fruto principalmente a falta de poupança domestica, como o pobre padrão de intermediação dessa escassa.
Entramos, finalmente, na parte prepositiva. Perguntamos, que se com a crise o fator externo deve, nas melhores das hipóteses, ser bastante diminuído (ponto de vista que eu ainda defendo apesar da recente melhora nos mercados), como que o Brasil pode crescer via fatores internos?
Afirmamos, mais uma vez contra um certo lugar comum aceito por muitos economistas keynesianos, que o problema do Brasil não é falta de demanda agregada, disso temos de sobra, mas sim entraves ao crescimento da oferta agregada.
A crise atual abre uma oportunidade para a taxa de juros cair bem abaixo do que seria seu “ponto neutro”, pelos próprios efeitos negativos da crise sobre a demanda. O problema é que, em um eventual cenário de recuperação, se não for feito nada, a tendência seria as taxas de juros voltarem a subir (com a apreciação do cambio). Isso de fato, se olharmos para o mercado hoje (lembrando que esses texto foi escrito no final de janeiro) já esta, infelizmente acontecendo.
Para resolver isso nossa proposta seria uma forte reformulação da política fiscal. Deixamos o texto apresentar as propostas, que obviamente são feitas de forma sugestiva, precisando mais detalhamento. Mas achamos que sem criar, nas políticas de gasto e tributação, mecanismos adicionais de controle de demanda agregada, e sem o uso inteligente do canal de expectativas pela maior coordenação das políticas monetárias, fiscais e cambias, que vamos desperdiçar, infelizmente, uma grande oportunidade de trazer para baixo, de forma permanente e sustentável, a taxa de juros real.
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