Formado pelo Centro Universitário de Brasília (UniCEUB), o jornalista Victor Martins já atuou na área de Comunicação do Tesouro Nacional, foi produtor da TV Record e repórter nos jornais Coletivo e Aqui DF. Atualmente é repórter do caderno de Economia do Correio Braziliense. Em entrevista ao Alternativa Brasil, ele acredita que a fase aguda da crise econômica já está passando, "mas o vento ainda está forte". Ele apóia algumas medidas tomadas pelos governos norte-americano e brasileiro para tentar reverter os efeitos da crise, mas é descrente quanto aos resultados da indústria e ao cumprimento da meta do programa "Minha Casa, Minha Vida". "Será uma meta difícil de ser atingida", diz ele.
ALTERNATIVA BRASIL - A crise financeira mundial já ultrapassou sua fase mais crítica? Já podemos falar num cenário "pós-crise"?
MARTINS - Como jornalista, não tenho como prever quando estaremos em um cenário pós-crise. Mas avalio que a fase aguda, de quebradeira de bancos estrangeiros, confiança do consumidor negativa, fuga de investidores da bolsa e vários indicadores em trajetória de queda está passando. Não estamos mais em meio ao furacão, mas o vento ainda está forte. As perspectivas para o PIB industrial em 2009 são as piores, esperam uma queda de 3,5%. Esse é um dado importante porque os industriais representam grande parte do PIB nacional. As estimativas para uso da capacidade instalada e novos investimentos também não é boa. O Brasil tem sólidas bases financeiras, mas, em uma economia globalizada, a insolvência internacional afeta o país, principalmente porque precisamos de crédito estrangeiro para podermos financiar nosso crescimento.
ALTERNATIVA BRASIL - Você concorda que vivemos um cenãrio "desenvolvimentista" na economia, a exemplo do que aconteceu nos anos seguintes à crise de 1929? Você acredita que o auxílio estatal a empresas privadas em dificuldades, como fez o governo americano com bancos e montadoras, pode piorar a situação no médio ou longo prazo?
MARTINS - Acredito que vivíamos em um cenário desenvolvimentista até setembro de 2008, quando a crise chegou ao auge. Atualmente, estamos passando por uma retração da atividade econômica, mas com indicadores de melhora para o longo prazo. Acredito porém, que os números que apresentavá-mos até o ano passado eram exuberantes, praticamente um novo milagre econômico, e como nossa base de comparação são esses números maravilhosos, é difícil apresentarmos resultados melhores em tempos de crise ou mesmo nesse início de recuperação.
Não vejo o apoio estatal nesse momento como um problema, na verdade foi a solução que garantiu a solvência dos mercados. No médio ou longo prazo, não vejo como isso pode se tornar um problema. O governo brasileiro já era sócio de diversas empresas antes da crise. O BNDES tem capital em vários empreendimentos, por exemplo. Que eu me lembre, nem por isso eles faliram ou tiveram qualquer tipo de problema influenciado pela participação estatal. No caso dos Estados Unidos, acredito que as empresas saneadas serão vistas como ativos do país. Se tal saneamento não fosse feito, não consigo imaginar os efeitos em cadeia que causariam na economia mundial.
ALTERNATIVA BRASIL - A reação do governo brasileiro (especialmente do Banco Central) à crise tem sido adequada?
MARTINS - Talvez tenha sido um pouco lenta, mas tem sido eficiente. A redução de IPI, a dimiuição do compulsório para os bancos e a obrigação de crédito mais barato pelos bancos públicos têm ajudado a contornar a crise. Indicadores de mercado já apontam que consumidores e empresas já estão buscando mais crédito, a confiança também está melhorando, o desemprego estabilizou, só a indústria que ainda está temerosa e deve apresentar resultado ruim em 2009.
ALTERNATIVA BRASIL - Qual sua opinião a respeito do programa Minha Casa, Minha Vida?
MARTINS - É importantíssimo incentivar as classes C e D a ter residêcias próprias. O projeto é bom em duas frentes, impulsiona a construção civil, setor importantíssimo para a economia e ainda ajuda a diminuir o déficit habitacional. O único defeito desse projeto é a meta, construir 1 milhão de casas em prazo tão curto é complicadíssimo para a construção civil. Em entrevistas que acompanhei, vi que essa meta será difícil de ser atendida.
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